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A quem mais interessou a venda da AGESPISA?


Foto Portal Clube News
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A água sempre foi mais do que um serviço público no Piauí. Ela é política. Ela é poder. Ela é pressão. Durante décadas, a AGESPISA foi a estatal responsável pelo abastecimento de água e esgotamento sanitário nas cidades piauienses. Também foi, não por acaso, o calcanhar de Aquiles de praticamente todos os governos estaduais. Faltava água. Faltava investimento. Faltava manutenção. Sobrava reclamação.

Prefeitos eram cobrados nas ruas. Vereadores eram pressionados nas sessões. Mas a responsabilidade final sempre recaía sobre o Governo do Estado. E aí mora a pergunta que ninguém quer responder com clareza:

Quem, de fato, mais ganhou com a venda?

O discurso da privatização

Quando um serviço público é entregue à iniciativa privada, o argumento costuma ser técnico e sedutor: eficiência, modernização, investimentos, desburocratização, melhoria da gestão.

No papel, parece uma solução inteligente. Se o Estado não consegue prestar um serviço com excelência, transfere para quem teoricamente sabe fazer melhor.

Mas surge o ponto sensível: a AGESPISA foi incapaz por natureza ou foi tornada incapaz ao longo dos anos?

Várias familias convivem com a falta de água nas torneiras - Foto G1
Várias familias convivem com a falta de água nas torneiras - Foto G1

Se uma empresa pública passa gestões e mais gestões sem investimentos adequados, com estrutura física deteriorada, quadro técnico desmotivado, prédios sucateados e orçamento limitado, o resultado não é mistério. É previsível. Ela afunda. Literalmente.

E quando chega ao fundo do poço "ironia nada sutil para quem lida com água" a solução apresentada é vender.

A pergunta continua ecoando: não seria mais estratégico estruturar, profissionalizar e blindar a empresa de interferências políticas para transformá-la em referência de gestão pública?

Ou era mais conveniente se livrar do problema?

O que se ganha ao vender?

Quando um governo decide vender uma estatal, existem pelo menos dois tipos de lucro possíveis: financeiro e político.

Financeiro: quanto entrou efetivamente nos cofres públicos com a venda? Para onde foi destinado esse recurso? Houve investimento direto em infraestrutura? Em saúde? Educação? Redução de dívida? Transparência é fundamental nesse ponto. Segundo o governo do Piauí, a outorga dos serviços vai custar R$ 1 bilhão à empresa compradora que deverá depositar R$ 250 milhões na conta do Estado no ato da assinatura do contrato. Os R$ 750 milhões restantes poderão ser pagos em uma parcela de R$ 250 milhões, quando a empresa assumir por completo os serviços e R$ 500 milhões ao longo do contrato.

O governo não foi claro em suas informações à mídia sobre como serão aplicados os R$ 250 milhões da “entrada” da Aegea e restante, R$ 750 milhões, mas como tem um abacaxi financeiro nas mãos, que é a multimilionária dívida da Agespisa, *Informações Portal AZ

Político: ao vender, o governo retira de si um problema histórico. A partir daquele momento, qualquer falha no abastecimento pode ser atribuída à empresa concessionária.

Antes, o governador era cobrado diretamente. Agora, existe uma fachada institucional chamada Águas do Piauí.

O desgaste muda de endereço.

E a população?

Essa é a variável central.

Se o serviço melhora, a discussão ideológica perde força. A sociedade quer água na torneira, esgoto tratado, conta justa e atendimento eficiente.

Mas relatos de problemas seguem surgindo em bairros de diversas cidades. Falta de abastecimento, reclamações sobre cobrança, dificuldades de atendimento. O discurso político também mudou: hoje prefeitos e vereadores apontam para a empresa privada como responsável.

A crítica deixou de subir a escada do Palácio e passou a bater na porta da concessionária.

E os servidores da antiga AGESPISA?

Por trás de qualquer estatal existem trabalhadores que dedicaram anos de suas vidas ao serviço público. Técnicos, engenheiros, operadores, administrativos.

O que restou a eles após a venda? Realocação? Aposentadorias forçadas? Desligamentos? Silêncio? Pouco se debate sobre esse impacto humano.

A responsabilidade diluída

Antes, havia um alvo político claro. Hoje, a responsabilidade parece diluída.

Os políticos municipais publicam notas informando que o abastecimento agora é de responsabilidade da Águas do Piauí.



O Governo do Estado aponta para o contrato de concessão.


A empresa concede entrevistas e participa de audiências públicas que muitas vezes falam muito e esclarecem pouco.

No meio disso tudo está o cidadão, que continua querendo o básico: água regular e serviço digno.


A pergunta que não quer calar

Privatizar foi a melhor solução técnica possível ou a saída politicamente mais confortável?

A quem mais interessou essa venda?

Ao caixa do Estado? À imagem do governo? À estratégia eleitoral? Ao mercado?

Ou, de fato, à população?

Essa é uma discussão que precisa sair dos bastidores e ir para o centro do debate público. Porque água não é só infraestrutura. É dignidade. É saúde. É vida.

E decisões sobre ela não podem ser tratadas como simples operação administrativa.

Piauí inteiro merecem respostas claras.


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